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Secção A Fundo / Volume 1

Foto do escritor: Zestbooks editores
Zestbooks editores
24 de ago.
7 min de leitura



Em Portugal, a edição continua a ser o principal instrumento de circulação do conhecimento estruturado. Muito antes das plataformas digitais e das redes sociais

científicas – onde Portugal se encontra dentro da média europeia, se bem que sem o impacto e a consistência de muitos dos seus congéneres –, foi através do livro académico, técnico ou ensaístico que o pensamento português encontrou expressão

e continuidade. O livro mantém-se, ainda hoje, como o ponto de encontro entre a

investigação, a cultura e o público, o lugar onde o conhecimento se torna legível,

transmissível e, em última instância, útil para a sociedade.


Contudo, o ecossistema da edição de conhecimento em Portugal é tão diverso

quanto fragmentado. Quatro universos coexistem sem uma coordenação nacional

evidente:

1. O universo académico e científico centra-se nas editoras universitárias – como a Imprensa da Universidade de Coimbra, a Imprensa da Universidade de Lisboa, a IST, a U.Porto Press, a UMinho Editora ou a Imprensa de Ciências Sociais, por exemplo –, cuja missão é publicar resultados de investigação e garantir a visibilidade da produção científica. Trabalham muitas vezes em regime de acesso aberto, com circuitos de difusão limitados e uma preocupação maior com a qualidade científica do que com o impacto comercial.


2. O universo institucional e fundacional, protagonizado por fundações como a Calouste Gulbenkian ou a Francisco Manuel dos Santos, que investem na divulgação científica e cultural. As suas coleções visam a tradução do conhecimento especializado para uma linguagem acessível, tornando visível a ciência portuguesa

e promovendo uma cultura cívica informada. A sua força está na curadoria e na credibilidade, mas com alcance ainda moderado em escala. Neste campo, também

se poderia integrar – ainda que paralelamente – a Fundação Champalimaud, por ser um centro de produção de comunicação científica, projetando Portugal no mapa científico global, com presença em revistas internacionais de relevo, assim como publicando relatórios e catálogos de alcance internacional. Um caso isolado de sucesso do mais avançado segmento da publicação científica institucional.


3. O universo do retalho e das editoras generalistas, onde as casas comerciais – algumas mais especializadas como a Lidel, a Almedina ou a Colibri, outras mais gerais como a Bertrand, Porto Editora, Tinta-da-China, Relógio d’Água, Gradiva, entre outras – acolhem, de forma mais ou menos pontual, autores provenientes da academia, muitas vezes por via de financiamento institucional. É aqui que a ciência encontra o mercado: quando o investigador se torna divulgador, ensaísta ou narrador, e o saber académico entra no circuito da não-ficção generalista.


Apesar de casos notáveis, esta integração continua esporádica e dependente de figuras individuais, mais do que de uma estratégia editorial sustentada – excetuando o caso da Gradiva e Lidel.


4. O universo institucional e político, representado pela FCT e pelas políticas públicas de ciência aberta, que incentivam a publicação e o acesso ao conhecimento produzido com financiamento público. O foco está, porém, na disseminação digital e não na valorização editorial e comunicacional do livro como objeto cultural.


No seu conjunto, estes universos formam uma fileira difusa, onde cada ator olha o livro a partir da sua própria lógica:

• o académico como instrumento de validação científica;

• o institucional como veículo de missão e impacto social;

• o editor comercial como produto cultural de valor de mercado;

• e o Estado (teoricamente) como meio de transparência e acesso ao conhecimento.


E que mercado é esse?


O mercado total do livro científico em Portugal é relativamente pequeno em escala internacional. Dentro do volume total, o segmento académico e científico (incluindo

fundações) representa apenas 1 a 3% do total, ou seja, entre €2 e €6 milhões anuais. É um setor pequeno e que concentra a produção intelectual de universidades, investigadores e instituições culturais, constituindo a base documental do pensamento português contemporâneo. No entanto, o peso económico reduzido contrasta com a função pública e cultural essencial que este segmento cumpre.


A visibilidade do conhecimento português ainda depende, em grande medida, da capacidade das editoras – públicas ou privadas – de traduzir investigação em leitura, dados em narrativa e reflexão em compreensão social. A ausência de estruturas de coordenação, de plataformas unificadas de distribuição (como a Unebook em Espanha) e de políticas de financiamento editorial contínuo mantém o sistema disperso e pouco eficiente.


Três problemas principais marcam a edição de conhecimento em Portugal:

1. Fragmentação institucional – não existe uma rede nacional de edição universitária nem um observatório que produza dados consistentes sobre o setor.


2. Escala e distribuição – a produção científica portuguesa raramente chega ao público, muitas vezes nem fora do centro sai, quando mais da academia, e o livro académico ainda é visto mais como resultado de carreira do que como produto

cultural.


3. Ausência de estratégia de transposição – falta um modelo que ligue investigadores, fundações e editoras comerciais na criação de coleções de divulgação sistemática, capazes de transformar o conhecimento nacional em leitura pública.


A dimensão invisível: barreiras internas e culturais A fragmentação da edição académica portuguesa não é apenas estrutural – é essencialmente cultural e relacional.


Grande parte das dificuldades desta edição resulta de microestruturas de poder, egos e feudos institucionais que, embora raramente assumidos, têm impacto profundo na dinâmica do setor. Persistem lógicas de autopromoção autoral e editorial, em que o livro universitário é entendido como extensão simbólica do estatuto do académico, e não como objeto comunicacional ou produto de interesse público. A publicação torna-se, por vezes, um exercício de legitimação interna – não um gesto de partilha de conhecimento.


Esta visão fechada cria círculos de poder disciplinares e barreiras invisíveis entre

escolas e centros, ou hierarquização, que coíbem o acesso a docentes de menor “reputação” e alunos – para os quais poderia ser um incentivo motivacional e académico para a persecução de carreira –, e impedindo colaborações transversais e a emergência de políticas editoriais comuns.


Adicionalmente, o modelo internacional de avaliação científica, assente em rankings que hierarquizam revistas e editoras, coloca o sistema português numa posição periférica.


Nenhuma editora universitária nacional está integrada de forma significativa nesses

índices – à exceção da Colibri, e mesmo esta com classificação modesta –, o que

exclui quase toda a edição académica portuguesa dos circuitos de reconhecimento

internacional. Essa ausência tem um duplo efeito perverso: por um lado, empurra os investigadores mais produtivos para editoras estrangeiras, onde o retorno curricular e

reputacional é maior; por outro, desincentiva a construção de uma agenda científica

com relevância global, uma vez que a publicação em Portugal não é valorizada nem pela hierarquia académica, nem pelo mercado editorial. Assim, a produção científica nacional tende a permanecer circunscrita, endógena e pouco interessante comercialmente, refletindo mais a falta de integração sistémica do que a qualidade

efetiva do conhecimento produzido.


A este panorama somam-se entraves burocráticos e institucionais que tornam difícil, ou quase impossível, a integração da edição científica no funcionamento regular das universidades. Faltam mecanismos de gestão editorial estáveis, quadros técnicos dedicados e orçamentos próprios. Muitos projetos sobrevivem à margem, dependentes da vontade de docentes, sem enquadramento nos serviços centrais

de comunicação ou nas unidades de I&D. As universidades, demasiado concentradas na produção de artigos indexados e relatórios de desempenho, negligenciam o valor estratégico da edição como política de conhecimento.


O resultado é um ecossistema simultaneamente produtivo e ineficaz – intelectualmente rico, mas administrativamente inábil; dotado de capital humano notável, mas incapaz de o transformar em projeto coletivo ou em cultura editorial com ambição pública.


O capital intelectual e institucional – universidades produtivas, fundações ativas – que Portugal possui carece de um ecossistema articulado que transforme o conhecimento em narrativa e o investigador em autor público.


A transposição do discurso científico para o público não especializado é hoje uma competência estratégica em qualquer ecossistema cultural maduro.


Nos países com sistemas editoriais robustos – como o Reino Unido, a França, a Alemanha, a Espanha ou o Brasil –, há uma cadeia profissionalizada de mediação entre a investigação e o público: jornalistas de ciência, editores especializados, copyeditors com formação disciplinar, consultores terminológicos, tradutores científicos, indexadores, revisores técnicos e designers de informação.


Em Portugal, esse elo intermédio praticamente não existe. O país produz

ciência, mas não a traduz em discurso acessível. A responsabilidade por essa

tradução recai quase sempre sobre o próprio investigador, que, salvo raras

exceções, não tem formação em comunicação científica ou narrativa pública.


Do outro lado, as editoras comerciais raramente dispõem de editores especializados em adaptação de texto académico, dominando antes o modelo literário, jornalístico ou ensaístico.


O resultado é um duplo desencontro: textos académicos que não chegam ao público, por serem demasiado densos ou tecnicamente fechados, muitas vezes nem aceitando esse ajuste; e textos de divulgação que carecem de rigor ou base científica sólida, porque não têm acompanhamento técnico.


Esta ausência de mediação profissional não é uma questão de estilo, mas de política cultural: significa que o investimento nacional em investigação raramente se traduz em capital cultural coletivo.


Por outro lado, em Portugal, não existe formação estruturada em edição científica

ou comunicação de ciência editorial. Os cursos de jornalismo e comunicação

abordam a divulgação científica apenas de forma tangencial; as universidades não

preparam editors para trabalhar a partir de manuscritos académicos, e os próprios

programas de doutoramento raramente treinam os investigadores para comunicar

para além do público especializado.


Há, portanto, uma dupla lacuna formativa: falta formação dos editors em linguagem

científica e processos de revisão técnica; e falta formação – e aceitação por parte – dos cientistas em escrita narrativa e adaptação para públicos não académicos.


Enquanto em Espanha existem mestrados em edición y comunicación de la ciencia, e

no Brasil proliferam cursos de especialização em jornalismo científico, Portugal mantém-se dependente da intuição e de esforços individuais. A falha não é apenas humana – é estrutural.


O país não possui um ecossistema especializado para apoiar a divulgação científica e académica, com:

• editoras dedicadas a esse nicho (à exceção parcial da Lidel, da Gradiva, com ciência, e da Fundação Francisco Manuel dos Santos, com divulgação social);

• serviços editoriais técnicos (tradução, revisão científica, consultoria terminológica);

• modelos de financiamento público específicos para a edição de divulgação baseada em ciência portuguesa;

• plataformas de intermediação entre investigadores e editores (como a Public Understanding of Science Unit no Reino Unido ou a RedPOP latino-americana).


O resultado é um vazio sistémico: a ciência portuguesa é publicada em revistas de acesso livre, mas confinada aos repositórios institucionais, e não se transforma em cultura partilhada.


Observam-se consequências práticas como: perda de capital simbólico – os investigadores portugueses raramente se tornam referências públicas de pensamento, mesmo em áreas onde o país produz conhecimento de ponta;

mercado atrofiado – o espaço editorial da não-ficção de base científica é dominado por traduções estrangeiras, o que significa que o mercado editorial nacional importa divulgação em vez de a produzir; fragmentação da identidade científica nacional – sem tradução cultural, a ciência portuguesa não constrói narrativa nem memória, produzindo dados, mas não sentido público.


Conclusão


Nesta análise, a Fundação Champalimaud é um dos exemplos que demostra o que Portugal poderia alcançar se o sistema científico e editorial cooperasse para transformar conhecimento em narrativa pública. A diferença é que, no caso Champalimaud, essa mediação é construída dentro da própria instituição e não no

mercado editorial, mas estou em crer que seguir esse exemplo e reforçar esta ligação

entre ciência, cultura e edição não seria apenas uma estratégia editorial: seria uma política de literacia, identidade e soberania cultural essencial para a ciência e para a

sociedade portuguesa.

 
 
 

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